
Paisagismo Brasil
Desenvolver um programa de formação profissional para empregadas domésticas implica, necessariamente, entrar no íntimo das atividades de uma moradia.
O poema Edite exalta a mulher simples imersa no mundo dos afazeres caseiros, lembrando detalhes, movimentos e cheiros característicos da rotina dos trabalhos.
Edite é quase uma fada dos serviços domésticos, cuja presença transcende, certamente, o simples fazer. Nesse sentido, o poema Edite foi usado como um cartão de boas vindas à profissão de empregada doméstica, olhada de uma forma mais complexa e sensível do que o usual.
Com este poema de Cecília Meireles, o programa de Formação de Empregadas Domésticas do Senac/SP, elaborado pela Germinal Consultoria, foi iniciado.
EDITE
Cecília Meireles
Cantemos Edite, a minha loura, branca e azul,
cujo avental de linho é a alegre vela de um barco
num domingo de sol, e cuja coifa é uma gaivota
planando baixa, pelo quarto.
Cantemos Edite, a anunciadora da madrugada,
que passa carregando os lençóis e as bandejas,
deixando pelos longos corredores
frescuras de jardim e ar de nuvem caseira.
Cantemos Edite, a de mãos rosadas, que caminha
com sorriso tão calmo e palavras tão puras:
sua testa é um canteiro de lírios
e seus olhos, miosotis cobertos de chuva.
Cantemos Edite, a muito loura, branca e azul,
que à luz ultravioleta se converte em ser abstrato,
em anjo roxo e verde, com pestanas incolores,
que sorri sem nos ver e nos fala calado.
Cantemos Edite, a que trabalha silenciosa
preparando todas as coisas desta vida,
porque a qualquer momento a porta deste mundo se abre
e chega de repente o esperado Messias.[1]
[1] Poesia Completa/ Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. vol 1 – pag. 579