Este poema de José Régio, Cântico Negro, está transcrito exaustivamente nos blogs pessoais, provavelmente pela sua belíssima expressão do grito por liberdade de existir, contido em uma infinidade de gargantas. O texto tem sido inserido em dinâmicas de aprendizagem criadas pela Germinal Consultoria, para uso em empresas ou escolas.
O poema tem enriquecido situações de aprendizagem que requerem, de alguma forma, a atitude firme e corajosa na descoberta de novas formas de ser ou de fazer, na mudança, no exercício do trabalho com liberdade e sentido, no repúdio à repetição e ao conformismo. O conteúdo da poesia é muito efetivo no despertar da inicitiva e da criatividade.
No momento da leitura, após a preparação sempre necessária, a opção pela interpretação do poema por Paulo Gracindo, disponível no CD Brasileiro Profissão Esperança, tem adicionado muita força e ainda mais emoção à vivência.
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CÂNTICO NEGRO
“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui”! Eu olho-os com olhos lassos, ( Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe. Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam os meus próprios passos… Se o que busco saber nenhum de vós responde, Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí… Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?… Corre, nas vossas veias, sangue velhos dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátrias, tendes tetos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios… Deus e o Diabo é quem me guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: “vem por aqui”! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou… Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, - Sei que não vou por aí!
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Encontra-se disponível, em vídeo, uma interpretação do poema Cântico Negro por Maria Bethânia, apresentada a seguir.


