O texto a seguir é um excerto da primeira sessão de aula da Estação de Trabalho de Administração e Organização, de uma versão alternativa do Programa de Educação para o Trabalho, desenvolvida pela Germinal Consultoria. A estação de trabalho utiliza o teatro como referência metodológica. O excerto, Cena VII, do Ato I, foi retirado do Manual do Instrutor. Lá, o poema é usado como roteiro para uma ação dramática. Esse uso da poesia é exemplar. Dramatizar um poema é uma forma de interpretá-lo e de perceber que, como texto simbólico que é, pode ser objeto de múltiplas interpretações.
CENA VII – O Relógio
Atores coordenadores: solicitam que os atores peguem o poema O Relógio (Melo Neto, J.C.. Antologia Poética. José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1979, p.68.), antes colocado sobre as carteiras. O poema está dividido em quatro partes. É atribuída uma parte a cada um dos quatro grupos dispostos nos quadrantes. Os coordenadores propõem que cada grupo prepare a apresentação do poema através de leitura e movimentos rítmicos, em 20 minutos. Orientam para que os grupos, na preparação, procurem captar, a partir de uma leitura do texto inteiro, o sentido geral da parte do poema que deverão representar. É em cima desse sentido geral que os movimentos devem ser elaborados. Os grupos devem evitar uma representação que reproduza ponto a ponto, em movimentos, a leitura do texto. Os movimentos não devem tentar ser uma réplica das palavras.
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O RELÓGIO
1. Ao redor da vida do homem há certas caixas de vidro, dentro das quais, como em jaula, se ouve palpitar um bicho.
Se são jaulas não é certo; mais perto estão das gaiolas ao menos, pelo tamanho e quebradiço da forma.
Umas vezes, tais gaiolas vão penduradas nos muros; outras vezes, mais privadas, vão num bolso, num dos pulsos.
Mas onde esteja: a gaiola será de pássaro ou pássara: é alada a palpitação, a saltação que ela guarda;
e de pássaro cantor, não pássaro de plumagem: pois delas se emite um canto de uma tal continuidade
que continua cantando se deixa de ouvi-lo a gente: como a gente às vezes canta para sentir-se existente.
2. O que eles cantam, se pássaros, é diferente de todos: cantam numa linha baixa, com voz de pássaro rouco;
desconhecem as variantes e o estilo numeroso dos pássaros que sabemos, estejam presos ou soltos;
têm sempre o mesmo compasso horizontal e monótono, e nunca, em nenhum momento, variam de repertório:
dir-se-ia que não importa a nenhum ser escutado. Assim, que não são artistas nem artesãos, mas operários
para quem tudo o que cantam é simplesmente trabalho, trabalho rotina, em série, impessoal, não assinado,
de operário que executa seu martelo regular proibido (ou sem querer) do mínimo variar.
3. A mão daquele martelo nunca muda de compasso. Mas tão igual sem fadiga, mal deve ser de operário;
ela é por demais precisa para não ser mão de máquina, e máquina independente de operação operária.
De máquina, mas movida por uma força qualquer que a move passando nela, regular, sem decrescer:
quem sabe se algum monjolo ou antiga roda de água que vai rodando, passiva, graças a um fluído que a passa;
que fluído é ninguém vê: da água não mostra os senões: além de igual, é contínuo, sem marés, sem estações.
E porque tampouco cabe, por isso, pensar que é o vento, há de ser um outro fluído que a move: quem sabe, o tempo.
4. Quando por algum motivo a roda de água se rompe, outra máquina se escuta: agora, de dentro do homem;
outra máquina de dentro, imediata, a reveza, soando nas veias, no fundo de poça no corpo, imersa.
Então se sente que o som da máquina, ora interior, nada possui de passivo, de roda de água: é motor;
se descobre nele o afogo de quem, ao fazer, se esforça, e que ele, dentro, afinal, revela vontade própria,
incapaz, agora, dentro, de ainda disfarçar que nasce daquela bomba motor (coração, noutra linguagem)
que, sem nenhum coração, vive a esgotar, gota a gota, o que o homem, de reserva, possa ter na íntima poça
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Após 20 minutos…
Grupo 1: um dos integrantes do grupo lê o primeiro segmento do poema, enquanto os demais representam o poema através de movimentos rítmicos (corpo expressivo).
Sem pausas, nem comentários…
Grupos 2,3, e 4: procedem de forma similar ao grupo 1, em relação aos seus segmentos de poema.
Pausa, na qual ocorrem comentários espontâneos sobre o trabalho.
Ator coordenador: solicita que os atores, ocupantes do espaço identificado no chão como “Técnico”, se apresentem dizendo: o que quiserem sobre si mesmos e, também, o que mais lhes chamou a atenção até o momento.
Técnicos: apresentam-se e expõem suas impressões.
Atores: apresentam suas dúvidas a respeito do espetáculo.
Atores coordenadores: esclarecem as dúvidas dos atores, aproveitando para apresentar o programa do espetáculo teatral.



Eu gostei bastante da explicação, mais eu gostaria que fosse mais detalhada.