PARA “A SEBASTIANA “

 

 

La Sebastiana - casa de Neruda

 O poema Para “La Sebastiana” entrou pela primeira vez como recurso instrucional numa situação de aprendizagem da Oficina de Artes Mecânicas de um Curso para Caseiros, desenvolvido pela  Germinal Consultoria . Neste caso, havia uma correspondência direta com os temas em estudo. Depois o poema foi inserido em outras situações de aprendizagem de diferentes áreas. Para “La Sebastiana” descreve com poesia a emoção da construção e da concretização do projeto.

Neruda escreveu o poema enquanto construia sua própria casa. Mas ele pode ser referido a qualquer outro projeto ou construção humana.  De preferência deve ser usado em projetos que tenham a possibilidade de  mobilizar intensamente as emoções de seus protagonistas.

 

Para “A Sebastiana”                                                                            

Eu construi a casa.

Primeiramente fi-la  de ar.
Depois hasteei a bandeira 
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.

Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um camião chegou:
desceram sacos  e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura – mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas – 
e nessa noite não dormi. 

Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,     
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram                                                                     
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave,  e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta: faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.

Neruda, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73.

Se quiser visualizar a sessão de aprendizagem da oficina Artes Mecânicas para caseiros, criada e desenvolvida pela Germinal Consultoria para o Senac/SP, clique aqui.

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O CULPADO

 

O poeta lamenta, reconhece a falha e pede desculpas por não ter aprendido a trabalhar com as mãos. Evidencia então o valor e a dignidade de um tipo de trabalho do qual se distanciou e nunca aprendeu a fazer, sentindo-se por isso incompleto como ser humano.

Assim, o poema de Neruda, O Culpado, pode introduzir o debate sobre a divisão técnica e social do trabalho e a inevitável limitação pessoal resultante das especializações, sejam manuais, intelectuais, gerenciais ou administrativas.  Pode também ser usada como parte de uma crítica da divisão taylorista do trabalho, especialmente da divisão entre os que pensam o trabalho e os que o executam.

Dessa forma, a Germinal Consultoria tem inserido O Culpado em  alguns de seus programas. O fato do poeta constatar a limitação justamente no artista e intelectual tem especial interesse, assim como a descrição que o poema faz do processo artesanal de trabalho (criativo e com domínio de todas as etapas) na confecção de uma vassoura.

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O Culpado  

Eu me declaro culpado de não ter
feito, com estas mãos que me deram,
uma vassoura.

Por que não fiz uma vassoura?

Por que me deram mãos?

Para que me serviram
se só vi o rumor do cereal,
se só tive ouvidos para o vento
e não recolhi o fio
da vassoura,
verde ainda na terra
e não pus para secar os talos ternos
e não os pude unir
num feixe áureo
e não juntei um caniço de madeira
à saia amarela
até dar uma vassoura aos caminhos?

Assim foi!
Não sei como
me passou a vida
sem aprender, sem ver,
sem recolher e unir
os elementos.

Nesta hora não nego
que tive tempo,
tempo,
mas não tive mãos,
e assim, como podia
aspirar com razão à grandeza
se nunca fui capaz
de fazer
uma vassoura
uma só,
uma?

 

Pablo Neruda, “O Culpado”, in: KÜLLER, J. A., Ritos de Passagem, São Paulo, Senac, 1996. p. 27.

A RUA DESTRUÍDA

 

S.Dali, Subúrbios da Cidade Paranóico-Crítica

 

  O poema de Pablo Neruda, A Rua Destruída, apresentado juntamente com o quadro de Salvador Dali (acima), pode ser utilizado em situações de aprendizagem que trabalhem o desenvolvimento da percepção e atenção para os detalhes de um determinado objeto ou ambiente.  Em pelo menos duas situações de aprendizagem específicas, esses dois estímulos, quadro e poema, foram utilizados: numa Oficina de Manutenção de Propriedades Agrícolas e  numa Oficina de Organização de Estética de Ambientes.

 

A RUA DESTRUÍDA

Pelo ferro injuriado, pelos olhos do gesso

passa uma língua de anos diferentes

do tempo. É uma cauda

de ásperas crinas, umas mãos de pedra cheias de ira,

e a cor das casas emudece, e estalam

as decisões da arquitetura,

um pé terrível enxovalha as sacadas:

com lentidão, com sombra acumulada,

com máscaras mordidas de inverno e lentidão,

passeiam os dias de alta fronte

entre casas sem lua.

 

A água e o costume e o lodo branco

que a estrela desprende, e especialmente

o ar que os sinos têm golpeado com fúria

gastam as coisas, tocam

as rodas, detem-se

nas tabacarias,

e cresce o cabelo vermelho das cornijas

como um longo lamento, enquanto na profundeza

tombam chaves, relógios,

flores assimiladas no esquecimento.

 

Onde está a violeta recém-parida? Onde

a gravata e o virginal zéfiro rubro?

Sobre as povoações

uma língua de pó apodrecido se adianta

a romper anéis, a roer pintura,

fazendo uivar sem voz as cadeiras negras,

cobrindo os florões do cimento, os baluartes

de metal destroçado,

o jardim e a lã, as ampliações de fotografias ardentes

feridas pelas chuvas, a seda das alcovas, e os grandes cartazes

dos cinemas onde lutam

a pantera e o trovão,

as lanças do gerânio, os armazéns cheios de mel perdido,

a tosse, as roupas de tecido brilhante,

tudo se cobre dum sabor mortal

    de retrocesso e umidade e ferida. (…)

 

A Rua Destruída, Pablo Neruda (Neruda, Pablo, Residência na Terra – II, tradução de      Paulo de Mendes Campos, Porto Alegre, L&PM, 1980, p. 27)

 

Clique aqui e para abrir a página Sessão de Aprendizagem II: A Busca de Outro Olhar e de Outro Perceber,  retirada do manual do instrutor, da Estação de Trabalho de Organização e Estética dos Ambientes, de uma versão alternativa ao  Programa de Educação para o Trabalho elaborada pela Germinal Consultoria para o SENAC.  Nela, poema e pintura são utilizados como recursos para provocar um desequilíbrio (Piaget) nas formas habituais de perceber.