Dinâmica de ouvir com PADRÃO

 

A Germinal Consultoria costuma utilizar, em alguns de seus programas, exercícios para desenvolver a capacidade de ouvir e liberar a fala espontânea. O exemplo a seguir é um excerto do manual do docente, da oficina Comunicação Oral e Escrita, do Programa Jovem Aprendiz Rural, elaborado pela Germinal. Algumas adaptações no texto foram feitas para ajustá-lo a esta postagem.

 

 

 

 

 

 

 

 

I. Ouvir bem para comunicar bem

 

 

 

Receba os participantes na porta da sala. Cumprimente-os um a um, de acordo com o nível de convivência que tiver com o grupo. Procure chamar cada um pelo nome. Se for o seu primeiro contato com o grupo, apresente-se e procure saber o nome de cada um. Tente, durante toda a sessão, memorizar o nome de cada participante. Isso vai ser importante para atividades da segunda sessão.

 

Solicite que escolham uma cadeira para sentar, dentre as dispostas em semicírculo, previamente arrumadas em quantidade idêntica ao do número de participantes. Peça que todos os participantes leiam, de forma individual e silenciosa, o texto de apoio: O Difícil Facilitário do Verbo Ouvir.

 O DIFÍCIL FACILITÁRIO DO VERBO OUVIR

Artur da Távola

Um dos maiores problemas de comunicação, tanto a de massas como a interpessoal, é o de como o receptor, ou seja, o outro, ouve o que o emissor, ou seja, a pessoa, falou.

 
Numa mesma cena de telenovela, notícia de telejornal ou num simples papo ou discussão, observo que a mesma frase permite diferentes níveis de entendimento

 
Na conversação dá-se o mesmo. Raras, raríssimas, são as pessoas que procuram ouvir exatamente o que a outra está dizendo.

 
Diante desse quadro venho desenvolvendo uma série de observações e, como ando bastante entusiasmado com a formulação delas, divido-as com o competente eleitorado que, por certo, me ajudará, passando-me as pesquisas que tenha a respeito.

 
Observe que:
1. Em geral o receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que o outro não está dizendo.
2. O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que quer ouvir.
3. O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que já escutara antes e coloca o que o outro está falando naquilo que se acostumou a ouvir.
4. O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que imagina que o outro ia falar.
5. Numa discussão, em geral, os discutidores não ouvem o que o outro está falando: eles ouvem quase que só o que estão pensando para dizer em seguida.
6. O receptor não ouve o que o outro fala: ouve o que gostaria ou de ouvir ou que o outro dissesse.
7. A pessoa não ouve o que a outra fala: ela apenas ouve o que está sentindo.
8. A pessoa não ouve o que a outra fala: ela ouve o que já pensava a respeito daquilo que a outra está falando.
9. A pessoa não ouve o que a outra está falando: ela retira da fala da outra apenas as partes que tenham a ver com ela e a emocionem, agradem ou molestem.
10. A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que confirme ou rejeite o seu próprio pensamento. Vale dizer, ela transforma o que a outra está falando em objeto de concordância ou discordância.
11. A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que possa se adaptar ao impulso do amor, raiva ou ódio que já sentia pela outra.
12. A pessoa não ouve o que a outra fala: ouve da fala dela apenas aqueles pontos que possam fazer sentido para as idéias e pontos de vista que, no momento, a estejam influenciando ou tocando mais diretamente.

 
Esses doze pontos mostram como é raro e difícil conversar. Como é raro e difícil se comunicar! O que há, em geral, ou são monólogos simultâneos trocados à guisa de conversa, ou são monólogos paralelos, à guisa de diálogo. O próprio diálogo pode haver sem que necessariamente haja comunicação. Pode até haver um conhecimento a dois, sem que, necessariamente, haja comunicação. Esta só se dá quando ambos os polos ouvem-se, não, é claro, no sentido material de”escutar”, mas no sentido de procurar compreender, em sua extensão e profundidade, o que o outro está dizendo.

 
Ouvir, portanto, é muito raro. É necessário limpar a mente de todos os ruídos e interferências do próprio pensamento durante a fala alheia.

 
Ouvir implica numa entrega ao outro, numa diluição nele. Daí a dificuldade de as pessoas inteligentes efetivamente ouvirem. A sua inteligência em funcionamento permanente, o seu hábito de pensar, avaliar, julgar e analisar tudo interfere como um ruído na plena recepção daquilo que o outro está falando.

 
Não é só a inteligência a atrapalhar a plena audiência.Outros elementos perturbam o ato de ouvir. Um deles é o mecanismo de defesa. Há pessoas que se defendem de ouvir o que as outras estão dizendo, por verdadeiro pavor inconsciente de se perderem de si mesmas. Elas precisam “não ouvir” porque “não ouvindo” livram-se da retificação dos próprios pontos de vista, da aceitação de realidades diferentes das próprias, de verdades idem e assim por diante. Livram-se do novo, que é saúde, mas as apavora. Não ouvir é, pois, um sólido mecanismo de defesa.

 
Ouvir é um grande desafio. Desafio de abertura interior; de impulso na direção do próximo, de comunhão com ele, de aceitação dele como é e como pensa. Ouvir é proeza. Ouvir é raridade. Ouvir é ato de sabedoria.

 
Depois que a pessoa aprende a ouvir, ela passa a fazer descobertas incríveis escondidas ou patentes em tudo aquilo que os outros estão dizendo a propósito de falar.

 

 

Após a leitura, estimule comentários dos alunos a respeito da compreensão que tiveram da leitura. Pergunte sobre situações que vivem no dia a dia e que estão próximas às situações relatadas no texto. Constate com o grupo como é difícil ouvir e ser ouvido, nas mais diferentes situações. Ressalte a importância do ouvir para a fluidez da comunicação. Proponha, a seguir, um exercício de audição que irá aplicar as sugestões apresentadas pelo texto.

Informe os alunos que irão ouvir uma música de forma diferente. Ouvir realmente a letra da música, procurando apreender todo o seu significado, sem que nada se sobreponha à audição. Para isso, como sugere o texto, é necessário limpar a mente dos pensamentos, preocupações, ansiedades, enfim de todas as interferências que atrapalham o ato de ouvir.

Solicite que todos se coloquem numa posição confortável e fechem os olhos. Depois, com calma, oriente a respiração. Peça que inspirem profundamente e expirem de maneira concentrada, com toda a atenção no ato da respiração. Peça que atentem para o ritmo, a profundidade e para o som da própria respiração. Se houver barulho externo que impeça ouvir a respiração, peça para concentrarem a audição nos barulhos externos simplesmente.

Oriente, em seguida, para todos procurarem manter a mente “limpa” para ouvir a música. Só então acione o aparelho de som para começar a audição da canção Padrão, interpretada por Caetano Veloso. É pouco provável que alguém do grupo a reconheça.

 

 

(Padrão é uma música feita a partir de um poema de Fernando Pessoa, extraído do livro Mensagem e disponível no CD de mesmo nome. O significado da palavra Padrão está relacionado ao “marco” deixado pelos antigos navegadores nos lugares por eles descobertos. Ver em: Pessoa Fernando. Obra Poética, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1986, pág 79).

Ao final da audição, peça que todos abram os olhos e, devagar, retomem suas posições. Pergunte-lhes sobre a experiência de ouvir. Conseguiram apreender algum sentido da letra da música?

O mais provável é que o grupo, com uma ou outra exceção, tenha tido muita dificuldade para manter a atenção concentrada apenas na música durante todo o tempo da audição. Discuta com eles essa dificuldade; as inúmeras interferências do pensamento atrapalhando a audição. Relacione essas mesmas dificuldades com a comunicação verbal entre as pessoas, tal como explica o texto de Arthur da Távola. Solicite, então, que façam uma leitura silenciosa do poema Padrão.

Cuneiform Epigraph--Nimrud, Mesopotamia / Near Eastern ArtIraq National Museum, Baghdad, Iraq -

Cuneiform Epigraph--Nimrud, Mesopotamia / Near Eastern ArtIraq National Museum, Baghdad, Iraq -

 

PADRÃO
Fernando Pessoa

 
O ESFORÇO é grande e o homem é pequeno.

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal moreno

E para diante naveguei.
 
A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão sinala ao vento e aos céus

Que, da obra ousada, é minha a parte feita:

O por-fazer é só com Deus.
 

E ao imenso e possível oceano

Ensinam estas Quinas, que aqui vês

Que o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é português.
 

E a cruz ao alto diz que o que me há na alma

E faz a febre em mim de navegar

Só encontrará de Deus na eterna calma

O porto sempre por achar.

 

 

 Estimule, depois da leitura, comentários sobre o tema do poema. Pergunte como o poema se relaciona com o trabalho que estão desenvolvendo no Projeto de Vida e na Oficina Aprender a Aprender. A partir da experiência desta conversa, chame a atenção também para a importância do falar: o tom utilizado pode provocar diferentes reações, inclusive de aceitação ou repulsa; a ênfase colocada no significado; a força da mensagem que pode perder ou ganhar com a forma como é falada, etc. Ou seja, a forma como se fala interfere na recepção da mensagem.

 

Encerre o exercício de audição propondo que os aprendizes coloquem em prática, a partir de agora e em todas as situações possíveis, o que estão aprendendo sobre ouvir e falar.

Publicado on abril 27, 2009 at 10:46 pm  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Adorei a página,sou psicóloga e achei o conteúdo ótimo, além de adorar as poesias. Vou aplicar com um grupo de mulheres. Obrigada e um abraço.

    • Obrigada isso me ajudou muito com as atividades da escola eu estava fazendo um trabalho e precisava de uma dinâmica aqui esta foi ótimo eu estou planejando mais aulas assim pq relaxa e acabo ficando sem aula das outras matérias vou sempre utilizar o seu site

  2. Queria entender cada frase dessa poesia
    o que quer dizer ?

    Dediquei um tempo para ler e escutar a música
    mas esse tipo de linguagem não estou acostumado.

    posso utilizar outra música nessa dinâmica ?

    Espero receber respostas.
    desde já agradeço…..

  3. Olá, sou Orientadora Educacional, adorei sua página!!!Vou utilizá-la nas reuniões de professores e com os alunos. Obg!!!


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