VOCÊ JÁ FOI À BAHIA?

A canção de Caymmi em que se diz  que a Bahia “tem um jeito que nenhuma terra tem” introduziu uma das unidades didáticas do Programa Trilha Jovem – Oficina de Turismo e suas Dimensões. Nessa introdução, foi travada a discussão sobre o que faz o jeito de ser de um lugar, seja de uma cidade ou de um país. 

Decorreu daí uma reflexão sobre o quanto os profissionais de turismo, das diferentes áreas, contribuem para a formação da marca da hospitalidade brasileira. A seguir debateu-se  sobre  qual seria essa marca e sobre quais seriam as características desejáveis de uma cultura brasileira da hospitalidade.

A sessão de aprendizagem teve início com a audição da música, cuja letra apresentamos a seguir:

Você já foi à Bahia?

(Dorival Caymmi)

Você já foi à Bahia, nêga?
Não? Então vá!
Quem vai ao Bonfim, minha nêga
Nunca mais quer voltar
Muita sorte teve
Muita sorte tem
Muita sorte terá
Você já foi à Bahia, nêga?
Não? Então vá!
Lá tem vatapá! Então vá!
Lá tem caruru! Então vá!
Lá tem mungunzá! Então vá!
Se quiser sambar! Então vá!
Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do imperador
Tudo isso na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito
Que nenhuma terra tem

Se quiser, ouça a canção com a família Caymmi.

Se quiser conhecer a página que apresenta a situação de aprendizagem onde a canção “Você já foi à Bahia?”  introduz o debate sobre a formação da cultura brasileira da hospitalidade, clique aqui.  O link  dá acesso a um excerto do manual do instrutor da Oficina Turismo e suas Dimensões, que faz parte do currículo do Programa Trilha Jovem, desenvolvido pela Germinal Consultoria .


[1] Disponível em <http://www.mpbnet.com.br/musicos/dorival.caymmi/letras/voce_ja_foi_a_bahia.htm>. Consulta em: 15 ago. 2006.

Anúncios

4 músicas sobre sonho, vida e beleza

 

 

Esta postagem é diferente das anteriores. Ela apresenta quatro músicas ao mesmo tempo. A referência para a postagem de poesias e músicas neste blog tem sido sempre uma situação de aprendizagem. E essas quatro músicas fazem parte de uma mesma dinâmica  de aprendizagem. Embora totalmente diferentes entre si, as quatro canções falam de beleza, de valores pessoais, de trabalho, de sonhos e ideais, da vida. A situação de aprendizagem que deu origem a este post faz parte de um  programa de aprendizagem: o “Jovem Aprendiz Rural”, do SENAR/SP e refere-se ao componente curricular:  Projeto de Vida.

 

1.  Beleza Pura (Caetano Veloso)

Não me amarra dinheiro não
mas formosura
Dinheiro não
a pele escura
Dinheiro não
a carne dura
Dinheiro não
Moça preta do Curuzu
Beleza pura
Federação
Beleza pura
Boca do Rio
Beleza pura
Dinheiro não
Quando essa preta começa a tratar do cabelo
É de se olhar
Toda a trama da trança a transa do cabelo
Conchas do mar
Ela manda buscar pra botar no cabelo
Toda minúcia
Toda delícia
Não me amarra dinheiro não
mas elegância
Não me amarra dinheiro não
mas a cultura
Dinheiro não
a pele escura
Dinheiro não
a carne dura
Dinheiro não
Moço lindo do badauê
Beleza Pura
Do Ilê aiyê
Beleza Pura
dinheiro Hié
Beleza Pura
Dinheiro não
Dentro daquele turbante dos filhos de Gandhi
É o que há
Tudo é chique demais, tudo é muito elegante
Manda botar
Fina palha da corte e que tudo se trance
todos os búzios
todos os ócios
Não me amarra dinheiro não
Mas os mistérios

 

2. Sonho Impossível (J. Darion – M. Leigh, versão de Chico Buarque e Ruy Guerra)

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

 

3.  Tocando em frente  (De Almir Sater e Renato Teixeira)

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco eu sei
Eu nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada
Eu vou
Estrada eu sou
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora um dia
A gente chega
E o outro vai embora
Cada um de nós
Compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz.

 

4. Redescobrir ( Luiz Gonzaga Júnior)

Como se fora brincadeira de roda
Memória
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias
O suor dos corpos na canção da vida
História
O suor da vida no calor de irmãos
Magia
Como um animal que sabe da floresta
Memória
Redescobrir o sal que está na própria pele
Macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa
Magia
Vai o bicho homem fruto da semente
Memória
Renascer da própria força a própria luz e fé
Memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós
História
Somos a semente, ato, mente e voz
Magia
Não tenha medo meu menino povo
Memória
Tudo principia na própria pessoa
Beleza
Vai como a criança que não teme o tempo
Mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor
Magia

 

Se quiser conhecer a situação de aprendizagem em que as  quatro músicas acima são usadas, clique aqui. Ela  faz parte do Projeto de Vida do Programa “Jovem Aprendiz Rural” e foi retirada do manual do instrutor, elaborado pela  Germinal Consultoria.

PADRÃO

 

 Padrão foi musicado por André Luiz OLiveira, juntamente com alguns dos outros poemas do livro Mensagem, de Fernando Pessoa. O CD Mensagem, da antiga Gravadora Eldorado, reúne os poemas que foram musicados, com interpretações memorávies de Elba Ramalho, Ney Matogroso, Gal Costa, Gilberto Gil, Elizeth Cardoso e outros,  resultando em uma obra magnífica. Assim, em situações ou dinâmicas de aprendizagem na empresa ou na escola, pode-se  optar por usar a música na interpretação de Caetano Veloso, disponível no CD.

Padrão fala da incompletude humana e da busca interminável que dela decorre. Por essa razão,  uma leitura ou a audição da música com o acompanhamento do texto do poema adequa-se muito bem para iniciar ou  finalizar a avaliação dos resultados de um projeto, por exemplo. O uso é especialmente recomendável quando o projeto foi desenvolvido com grande envolvimento e empenho da equipe executora. Mesmo que todos estejam muito satisfeitos com os resultados, não significa que o trabalho realizado foi perfeito. Padrão marca a conquista  e estimula a ir além. Prosseguir em busca do “porto sempre por achar“.

Por sua beleza excepcional e dificuldade do texto, Padrão pode ser também usado para exercícios de escutar com atenção. Após a devida preparação, incluindo uma breve discussão sobre como é difícil ouvir autenticamente, a música é posta para tocar e os participantes procuram ouvir a letra da canção. Depois de uma breve constação das dificuldades de cada um, recebem o texto do poema para que cada um possa avaliar o quanto conseguiu escutar.  Fora a surpresa da descoberta das dificuldades da audição, é comum o espanto dos participantes com a beleza de música e poesia.

PADRÃO

                                

 

O ESFORÇO é grande e o homem é pequeno.

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal moreno

E para adiante naveguei.

 

A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão sinala ao vento e aos céus

Que, da obra ousada, é minha a parte feita:

O por-fazer é só com Deus.

 

E ao imenso e possível oceano

Ensinam estas Quinas, que aqui vês,

Que o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é português.

 

E a cruz ao alto diz que o que me há na alma

E faz a febre em mim de navegar

Só encontrará de Deus na eterna calma

O porto sempre por achar.

 

 

Fernando Pessoa, Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1986, p. 79

 

Abaixo, o poema Padrão pode ser ouvido na música de André Luiz Oliveira e voz de Caetano Veloso.

Um exemplo do uso didático do poema é encontrável no texto Falar e Ouvir, publicado no blog Germinal – Educação e  Trabalho, da Germinal Consultoria, e parcialmente republicado na página Ouvir com PADRÃO.

CÂNTICO NEGRO

 

Gravura de Vieira da Silva - Portugal

Gravura de Vieira da Silva - Portugal

 Este poema de José Régio, Cântico Negro, está transcrito exaustivamente nos blogs pessoais, provavelmente pela sua belíssima expressão do grito por liberdade de existir, contido em uma infinidade de gargantas. O texto tem sido inserido em  dinâmicas de aprendizagem criadas pela Germinal Consultoria, para uso em empresas ou escolas.

O poema tem enriquecido situações de aprendizagem que requerem, de alguma forma, a atitude firme e corajosa na descoberta de novas formas de ser ou de fazer, na mudança, no exercício do trabalho com liberdade e sentido, no repúdio à repetição e ao conformismo.  O conteúdo da poesia é muito efetivo no despertar da inicitiva e da criatividade.

No momento da  leitura, após a preparação sempre necessária, a opção pela interpretação do poema por Paulo Gracindo, disponível no CD Brasileiro Profissão Esperança, tem adicionado muita força e ainda mais emoção à vivência.

CÂNTICO NEGRO

 

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

( Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam os meus próprios passos…

Se o que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: “vem por aqui”?

 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velhos dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

 

Ide! tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é quem me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

– Sei que não vou por aí!

 

 

José Régio – Antologia, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p. 31 – 3

 

 

Encontra-se disponível, em vídeo, uma interpretação do poema Cântico Negro por Maria Bethânia, apresentada a seguir.

NO MEIO DO CAMINHO

 

Aldeia -Portugal

Aldeia -Portugal

O poema de Drummond, embora famoso, costuma despertar algum estranhamento ou desconforto. Bom para uma pausa, chamar a atenção, introduzir uma análise das dificuldades encontradas no fazer. Assim foi usado no projeto Letramento Digital, destinado à inserção digital de pessoas com dificuldades de leitura e escrita.

 

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

 

 

Poesia Completa / Carlos Drummond de Andrade. – 1ª ed. -Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 2002

 Clique aqui para entrar na página No Meio do Caminho do Letramento Digital e conhecer, em detalhes, a sessão de aprendizagem que utiliza o poema. Trata-se de um excerto do manual do docente do Projeto Letramento Digital, elaborado pela Germinal Consultoria em parceria com o SENAC/Rio.

SONHO DE HEROI

 

António Chagas - Fotógrafos de Elvas

A situação de aprendizagem incluia surpreender os jovens alunos que chegavam para as atividades de projeto que resultariam em um Plano de Vida e Carreira. Ao mesmo tempo,  era preciso desafiá-los a formularem a missão e visão de vida para serem incluídas no plano  que iriam elaborar.

 

A tarefa requeria o envolvimento emocional de cada um. Então, uma série de estímulos artísticos foram utilizados, incluindo o poema Sonho de Heroi, que propõe um vôo para além da realidade imediata.

 

Sonho de Heroi

 

Com um galho de bambu verde

e dois ramos de palmeira

eu hei de fazer um dia o meu cavalo – com asas!

Subirei nele, com vento, lá bem alto,

de carreira,

por sobre o arvoredo e as casas.

 

Voarei, roçando o mato,

as copas em flor das árvores,

como se cruzasse o mar…

e até sobre o mar de fato

passarei nas nuvens pálidas

muito acima das montanhas, das cidades, das cachoeiras,

mais alto que a chuva, no ar!

 

E irei às estrelas,

ilhas dos rios de além,

ilhas de pedras divinas,

de ribeiras diamantinas

com palmas, conchas, coquinhos nas suas praias também…

praias de pérola e de ouro

onde nunca foi ninguém…

 

ARAÚJO, M. Poemas completos de Murilo Araújo.

Rio de Janeiro: Pongetti. 1960, pág. 84.

 

Clique aqui para entrar na página Dinâmica com Sonho de Heroi, que apresenta um excerto de uma das Sessões de Aprendizagem do Plano de Vida e Carreira, projeto articulador do Eixo III – Construir um Plano de Vida e Careira – do Projeto Trilha Jovem. O excerto foi retirado das Referências para a Ação Docente, desenvolvidas pela Germinal e publicadas pelo Instituto de Hospitalidade.

ANINHA E SUAS PEDRAS

 

O poema de Cora Coralina, Aninha e suas pedras, chama a atenção para as infinitas possibilidades de reinício e de reinvenção das pessoas. Aponta para a proatividade, o empreendedorismo e a criatividade como alternativas disponíveis ao ato de vontade. Assim, o poema tem iluminado o início de inúmeros trabalhos de aprendizagem e desenvolvimento. A atitude a ser assumida pelos envolvidos em um processo  de desenvolvimento  pessoal e profissional sempre é muito importante para os resultados que se quer atingir.

Aninha e suas pedras

 

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

E não entraves seu uso

aos que têm sede.

 

 

CORALINA, C. Vinténs de cobre: meias confissões de Aninha.  São Paulo: Global, 2001. 

 

 Clique aqui para abrir a página Dinâmica de Aquecimento com ANINHA E SUAS PEDRAS, retirada das Referências para a Ação Docente, da sessão de aprendizagem 4/7, da Oficina de Emprendedorismo do Projeto Trilha Jovem, elaboradas pela Germinal Consultoria para o Instituto de Hospitalidade.  Nela, o poema é usado como aquecimento e introdução  às questões específicas do empreendedorismo e excelência profissional.

PROFISSÃO DO POETA

 

O poema Profissão do Poeta define um tom, marca uma posição, inaugura um encontro, ilumina uma proposta… Convida para a caminhada,  sempre a mais de um.

Assim, o poema pode funcionar como aquecimento inespecífico para um situação de aprendizagem ou para iniciar uma  dinâmica onde ser verdadeiro é importante, por exemplo. Também pode ser usada para introduzir  a apresentação do professor em um início de curso ou de encontro de aprendizagem.

 

Profissão do Poeta (excerto)

 

Operário do canto, me apresento

sem marca ou cicatriz, limpas as mãos,

minha alma limpa, a face descoberta,

aberto o peito, e – expresso documento –

a palavra conforme o pensamento.

 

Fui chamado a cantar e para tanto

há um mar de som no búzio de meu canto.

Trabalho à noite e sem revezamentos.

Se há mais quem cante cantaremos juntos;

sem se tornar com isso menos pura,

a voz sobe uma oitava na mistura.

 

Não canto onde não seja a boca livre,

onde não haja ouvidos limpos

e almas afeitas a escutar sem preconceito.

Para enganar o tempo – ou distrair

criaturas já de si tão mal atentas,

não canto…

Canto apenas quando dança,

nos olhos dos que me ouvem, a esperança. 

 

 

Geir Campos. A Profissão do Poeta. In: Fernandes, Millor e Rangel, Flávio. Liberdade, Liberdade. São Paulo, L&PM, 1987, p. 22.)

 

 

Clique aqui para abrir a página PROFISSÃO DO POETA na construção de um texto,  retirada do blog Germinal Educação e Trabalho – Escritos nossos e de outros. O autor utiliza o poema como linha condutora na construção da argumentação de todo o texto. Essa utilização do poema exemplifica outra possibilidade, além das citadas anteriormente.

A RUA DESTRUÍDA

 

S.Dali, Subúrbios da Cidade Paranóico-Crítica

 

  O poema de Pablo Neruda, A Rua Destruída, apresentado juntamente com o quadro de Salvador Dali (acima), pode ser utilizado em situações de aprendizagem que trabalhem o desenvolvimento da percepção e atenção para os detalhes de um determinado objeto ou ambiente.  Em pelo menos duas situações de aprendizagem específicas, esses dois estímulos, quadro e poema, foram utilizados: numa Oficina de Manutenção de Propriedades Agrícolas e  numa Oficina de Organização de Estética de Ambientes.

 

A RUA DESTRUÍDA

Pelo ferro injuriado, pelos olhos do gesso

passa uma língua de anos diferentes

do tempo. É uma cauda

de ásperas crinas, umas mãos de pedra cheias de ira,

e a cor das casas emudece, e estalam

as decisões da arquitetura,

um pé terrível enxovalha as sacadas:

com lentidão, com sombra acumulada,

com máscaras mordidas de inverno e lentidão,

passeiam os dias de alta fronte

entre casas sem lua.

 

A água e o costume e o lodo branco

que a estrela desprende, e especialmente

o ar que os sinos têm golpeado com fúria

gastam as coisas, tocam

as rodas, detem-se

nas tabacarias,

e cresce o cabelo vermelho das cornijas

como um longo lamento, enquanto na profundeza

tombam chaves, relógios,

flores assimiladas no esquecimento.

 

Onde está a violeta recém-parida? Onde

a gravata e o virginal zéfiro rubro?

Sobre as povoações

uma língua de pó apodrecido se adianta

a romper anéis, a roer pintura,

fazendo uivar sem voz as cadeiras negras,

cobrindo os florões do cimento, os baluartes

de metal destroçado,

o jardim e a lã, as ampliações de fotografias ardentes

feridas pelas chuvas, a seda das alcovas, e os grandes cartazes

dos cinemas onde lutam

a pantera e o trovão,

as lanças do gerânio, os armazéns cheios de mel perdido,

a tosse, as roupas de tecido brilhante,

tudo se cobre dum sabor mortal

    de retrocesso e umidade e ferida. (…)

 

A Rua Destruída, Pablo Neruda (Neruda, Pablo, Residência na Terra – II, tradução de      Paulo de Mendes Campos, Porto Alegre, L&PM, 1980, p. 27)

 

Clique aqui e para abrir a página Sessão de Aprendizagem II: A Busca de Outro Olhar e de Outro Perceber,  retirada do manual do instrutor, da Estação de Trabalho de Organização e Estética dos Ambientes, de uma versão alternativa ao  Programa de Educação para o Trabalho elaborada pela Germinal Consultoria para o SENAC.  Nela, poema e pintura são utilizados como recursos para provocar um desequilíbrio (Piaget) nas formas habituais de perceber.