CONVERSA DE BOTEQUIM

 

 A oficina Prestação de Serviços de Salão e Bar, do Projeto Trilha Jovem, tem início com o processo de desenvolvimento da competência “atender o cliente”. E, logo de entrada, para aquecer um primeiro debate sobre o cliente, a sessão de aprendizagem apresenta a canção Conversa de Botequim, de Noel Rosa e Vadico. A ilustração é  alusão à própria canção, capa de LP de Moreira da Silva.

Conversa de Botequim

Noel Rosa e Vadico

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada

Fecha a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro
Telefone ao menos uma vez para 34-4333
E ordene ao Seu Osório que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório

Seu garçom, me empreste algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure essa despesa no cabide ali em frente

Se quiser conhecer a página que apresenta a descrição da situação de aprendizagem que utiliza a canção Conversa de Botequim como recurso, clique aqui. Trata-se de um excerto das referências para a ação docente, elaboradas pela  Germinal Consultoria .

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VOCÊ JÁ FOI À BAHIA?

A canção de Caymmi em que se diz  que a Bahia “tem um jeito que nenhuma terra tem” introduziu uma das unidades didáticas do Programa Trilha Jovem – Oficina de Turismo e suas Dimensões. Nessa introdução, foi travada a discussão sobre o que faz o jeito de ser de um lugar, seja de uma cidade ou de um país. 

Decorreu daí uma reflexão sobre o quanto os profissionais de turismo, das diferentes áreas, contribuem para a formação da marca da hospitalidade brasileira. A seguir debateu-se  sobre  qual seria essa marca e sobre quais seriam as características desejáveis de uma cultura brasileira da hospitalidade.

A sessão de aprendizagem teve início com a audição da música, cuja letra apresentamos a seguir:

Você já foi à Bahia?

(Dorival Caymmi)

Você já foi à Bahia, nêga?
Não? Então vá!
Quem vai ao Bonfim, minha nêga
Nunca mais quer voltar
Muita sorte teve
Muita sorte tem
Muita sorte terá
Você já foi à Bahia, nêga?
Não? Então vá!
Lá tem vatapá! Então vá!
Lá tem caruru! Então vá!
Lá tem mungunzá! Então vá!
Se quiser sambar! Então vá!
Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do imperador
Tudo isso na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito
Que nenhuma terra tem

Se quiser, ouça a canção com a família Caymmi.

Se quiser conhecer a página que apresenta a situação de aprendizagem onde a canção “Você já foi à Bahia?”  introduz o debate sobre a formação da cultura brasileira da hospitalidade, clique aqui.  O link  dá acesso a um excerto do manual do instrutor da Oficina Turismo e suas Dimensões, que faz parte do currículo do Programa Trilha Jovem, desenvolvido pela Germinal Consultoria .


[1] Disponível em <http://www.mpbnet.com.br/musicos/dorival.caymmi/letras/voce_ja_foi_a_bahia.htm>. Consulta em: 15 ago. 2006.

4 músicas sobre sonho, vida e beleza

 

 

Esta postagem é diferente das anteriores. Ela apresenta quatro músicas ao mesmo tempo. A referência para a postagem de poesias e músicas neste blog tem sido sempre uma situação de aprendizagem. E essas quatro músicas fazem parte de uma mesma dinâmica  de aprendizagem. Embora totalmente diferentes entre si, as quatro canções falam de beleza, de valores pessoais, de trabalho, de sonhos e ideais, da vida. A situação de aprendizagem que deu origem a este post faz parte de um  programa de aprendizagem: o “Jovem Aprendiz Rural”, do SENAR/SP e refere-se ao componente curricular:  Projeto de Vida.

 

1.  Beleza Pura (Caetano Veloso)

Não me amarra dinheiro não
mas formosura
Dinheiro não
a pele escura
Dinheiro não
a carne dura
Dinheiro não
Moça preta do Curuzu
Beleza pura
Federação
Beleza pura
Boca do Rio
Beleza pura
Dinheiro não
Quando essa preta começa a tratar do cabelo
É de se olhar
Toda a trama da trança a transa do cabelo
Conchas do mar
Ela manda buscar pra botar no cabelo
Toda minúcia
Toda delícia
Não me amarra dinheiro não
mas elegância
Não me amarra dinheiro não
mas a cultura
Dinheiro não
a pele escura
Dinheiro não
a carne dura
Dinheiro não
Moço lindo do badauê
Beleza Pura
Do Ilê aiyê
Beleza Pura
dinheiro Hié
Beleza Pura
Dinheiro não
Dentro daquele turbante dos filhos de Gandhi
É o que há
Tudo é chique demais, tudo é muito elegante
Manda botar
Fina palha da corte e que tudo se trance
todos os búzios
todos os ócios
Não me amarra dinheiro não
Mas os mistérios

 

2. Sonho Impossível (J. Darion – M. Leigh, versão de Chico Buarque e Ruy Guerra)

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

 

3.  Tocando em frente  (De Almir Sater e Renato Teixeira)

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco eu sei
Eu nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada
Eu vou
Estrada eu sou
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora um dia
A gente chega
E o outro vai embora
Cada um de nós
Compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz.

 

4. Redescobrir ( Luiz Gonzaga Júnior)

Como se fora brincadeira de roda
Memória
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias
O suor dos corpos na canção da vida
História
O suor da vida no calor de irmãos
Magia
Como um animal que sabe da floresta
Memória
Redescobrir o sal que está na própria pele
Macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa
Magia
Vai o bicho homem fruto da semente
Memória
Renascer da própria força a própria luz e fé
Memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós
História
Somos a semente, ato, mente e voz
Magia
Não tenha medo meu menino povo
Memória
Tudo principia na própria pessoa
Beleza
Vai como a criança que não teme o tempo
Mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor
Magia

 

Se quiser conhecer a situação de aprendizagem em que as  quatro músicas acima são usadas, clique aqui. Ela  faz parte do Projeto de Vida do Programa “Jovem Aprendiz Rural” e foi retirada do manual do instrutor, elaborado pela  Germinal Consultoria.

TEMPO REI

 

P. Cézanne, Rochedos em LEstaque

P. Cézanne, Rochedos em L'Estaque

 As idéias de transformação, mudança, renovação suscitadas pela letra da música Tempo Rei, de Gilberto Gil, são fonte de inspiração para um exercício de criatividade no programa Letramento Digital, destinado à inclusão digital de jovens e adultos com dificuldades de leitura e escrita. A utilização da canção popular é uma constante neste programa, que procura, permanentemente em seu processo, a  mobilização individual para a leitura e escrita, com utilização do computador.

Ao final desta página, há um link disponível para abrir a descrição da situação de aprendizagem que tem esta canção como recurso instrucional.

Tempo Rei

(Gilberto Gil)

Não me iludo
Tudo permanecerá
Do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando
Todos os sentidos…

Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva
E pelo eterno vento…

Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Que não restará
Nem pensamento…

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!…

Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos…

Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas
De repente ficam sujas…

Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo
Pode estar por um segundo…

Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Oh Tempo Rei!
Transformai
As velhas formas do viver
Ensinai-me
Oh Pai!
O que eu, ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo
Socorrei!…(2x)

Á música pode ser ouvida no vídeo a seguir:

Para visualizar a sessão de aprendizagem, da etapa Criar, do projeto Letramento Digital, criado pela  Germinal Consultoria  em parceria com o Senac/Rio, clique aqui.

Edite

 

Paisagismo Brasil

Paisagismo Brasil

Desenvolver um programa de formação profissional para empregadas domésticas implica, necessariamente, entrar no  íntimo das atividades de uma moradia. 

 O poema Edite exalta a mulher simples imersa no mundo dos afazeres caseiros, lembrando detalhes, movimentos e cheiros característicos da rotina dos trabalhos.

Edite é quase uma fada dos serviços domésticos, cuja presença transcende, certamente, o simples fazer. Nesse sentido, o poema Edite foi usado como um cartão de boas vindas  à profissão de empregada doméstica, olhada de uma forma mais complexa e sensível do que o usual.

Com este poema de Cecília Meireles, o programa de Formação de Empregadas Domésticas do Senac/SP, elaborado pela Germinal Consultoria, foi iniciado.

 

EDITE

Cecília Meireles

 

Cantemos Edite, a minha loura, branca e azul,

cujo avental de linho é a alegre vela de um barco

num domingo de sol, e cuja coifa é uma gaivota

planando baixa, pelo quarto.

 

Cantemos Edite, a anunciadora da madrugada,

que passa carregando os lençóis e as bandejas,

deixando pelos longos corredores

frescuras de jardim e ar de nuvem caseira.

 

Cantemos Edite, a de mãos rosadas, que caminha

com sorriso tão calmo e palavras tão puras:

sua testa é um canteiro de lírios

e seus olhos, miosotis cobertos de chuva.

 

Cantemos Edite, a muito loura, branca e azul,

que à luz ultravioleta se converte em ser abstrato,

em anjo roxo e verde, com pestanas incolores,

que sorri sem nos ver e nos fala calado.

 

Cantemos Edite, a que trabalha silenciosa

preparando todas as coisas desta vida,

porque a qualquer momento a porta deste mundo se abre

e chega de repente o esperado Messias.[1]

 


[1] Poesia Completa/ Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. vol 1 – pag. 579

TRÊS IDADES

 

As Três Idades da Mulher, Gustav Klimt

Olhar para trás, visualizar o caminho já percorrido ajuda a organizar o pensamento. É importante, especialmente, para projetar o que se quer realizar no futuro. Isso vale para a definição de um projeto de vida, incluindo o profissional.

Elaborar um projeto de vida é uma competência que os jovens precisam desenvolver.  Essa é uma  aprendizagem proporcionada aos  jovens em programas de educação básica para o trabalho, desenvolvidos pela Germinal Consultoria.

Nesses programas, o poema Três Idades é usado em dinâmicas e situações de aprendizagem para introduzir uma reflexão sobre o projeto de vida.

Três Idades

Manuel Bandeira

A vez primeira que te vi,
Era eu menino e tu menina.
Sorrias tanto… Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras franzina…

A ver-te, a rir numa gavota,
Meu coração entristeceu
Por que? Relembro, nota a nota,
Essa ária como enterneceu
O meu olhar cheio do teu.

Quando te vi segunda vez,
Já eras moça, e com que encanto
A adolescência em ti se fez!
Flor e botão… Sorrias tanto…
E o teu sorriso foi meu pranto…

Já eras moça… Eu, um menino…
Como contar-te o que passei?
Seguiste alegre o teu destino…
Em pobres versos te chorei
Teu caro nome abençoei.

Vejo-te agora. Oito anos faz,
Oito anos faz que não te via…
Quanta mudança o tempo traz
Em sua atroz monotonia!
Que é do teu riso de alegria?

Foi bem cruel o teu desgosto.
Essa tristeza é que mo diz…                                                                                                     

Ele marcou sobre o teu rosto
A imperecível cicatriz:
És triste até quando sorris…

Porém teu vulto conservou
A mesma graça ingênua e fina…
A desventura te afeiçoou
À tua imagem de menina.
E estás delgada, estás franzina…

Manuel Bandeira, Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1985

PARA “A SEBASTIANA “

 

 

La Sebastiana - casa de Neruda

 O poema Para “La Sebastiana” entrou pela primeira vez como recurso instrucional numa situação de aprendizagem da Oficina de Artes Mecânicas de um Curso para Caseiros, desenvolvido pela  Germinal Consultoria . Neste caso, havia uma correspondência direta com os temas em estudo. Depois o poema foi inserido em outras situações de aprendizagem de diferentes áreas. Para “La Sebastiana” descreve com poesia a emoção da construção e da concretização do projeto.

Neruda escreveu o poema enquanto construia sua própria casa. Mas ele pode ser referido a qualquer outro projeto ou construção humana.  De preferência deve ser usado em projetos que tenham a possibilidade de  mobilizar intensamente as emoções de seus protagonistas.

 

Para “A Sebastiana”                                                                            

Eu construi a casa.

Primeiramente fi-la  de ar.
Depois hasteei a bandeira 
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.

Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um camião chegou:
desceram sacos  e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura – mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas – 
e nessa noite não dormi. 

Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,     
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram                                                                     
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave,  e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta: faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.

Neruda, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73.

Se quiser visualizar a sessão de aprendizagem da oficina Artes Mecânicas para caseiros, criada e desenvolvida pela Germinal Consultoria para o Senac/SP, clique aqui.

O NÚMERO QUATRO

 

QUATRO - pedra da Gávea

Pedra da Gávea

 Existem coisas que aparentemente não mudam. Determinadas estruturas sociais, velhos hábitos, determinados modos de pensar…

No entanto, as mudanças ao longo do tempo e em todos os âmbitos da vida constituem um fato irrefutável. Ainda que não se dê conta de quando ou quanto, ainda que não se acredite nelas ou não se lhes dê importância,  mesmo quando imperceptíveis no dia a dia, as mudanças acontecem.

Esse contraponto entre a aparente imobilidade e a mudança inevitável precisa vir  à baila sempre que se discute, na empresa ou na escola, paradigmas, estruturas ou formas de ser muito sólidas e estabelecidas.

O poema O Número Quatro, de João Cabral de Melo Neto, certamente é um bom ponto de partida para debates desse tipo. Também pode ser incluído em dinâmicas que tem a mudança como tema. Assim tem sido inserido em muitas situações de aprendizagem previstas e mediadas pela Germinal Consultoria.

     O NÚMERO QUATRO 

 

O número quatro feito coisa

ou a coisa pelo quatro quadrada,

seja espaço, quadrúpede, mesa,

está racional em suas patas;

está plantada, à margem e acima

de tudo o que tentar abalá-la,

imóvel ao vento, terremotos,

no mar maré ou no mar ressaca.

Só o tempo que ama o ímpar instável

pode contra essa coisa ao passá-la:

mas a roda, criatura do tempo,

é uma coisa em quatro, desgastada

 

                              João Cabral de Melo Neto

PRECE

 

foto: Mel de Carvalho

O poema Prece foi musicado por André Luiz Oliveira, juntamente com alguns dos outros poemas do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, incluindo Padrão, já publicado neste blog.

Em situações ou dinâmicas de aprendizagem na empresa ou na escola, pode-se  optar por usar a música na interpretação de Gilberto Gil, disponível no CD Mensagem.

O poema Prece fala da possibilidade humana de renascimento, sempre presente, ainda que a situação esteja distante dos tempos áureos. Aponta a chama da vida como a condição única para novas viagens, novos projetos, novas distâncias a percorrer.

Uma leitura ou a audição da música com o acompanhamento do texto do poema é bastante pertinente nas situações de aprendizagem em que é necessário um estímulo para a mudança. Quando a descrença, ou desesperança, ameaça comprometer o desenvolvimento de uma proposta de trabalho, o poema Prece dá o toque certo e aponta o caminho para a conquista da distância possível: a que seja nossa!

O poema tem sido inserido em  dinâmicas de aprendizagem criadas pela Germinal Consultoria, para uso em empresas, escolas e órgãos públicos. 

    PRECE                                        

  Fernando Pessoa  

 

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, no silêncio hostil,

O mar universal e a saudade.

 

Mas a chama, que a vida em nós criou,

Se ainda há vida ainda não é finda.

O frio morto em cinzas a ocultou:

A mão do vento pode ergue-la ainda.

 

Dá o sopro, a aragem, – ou desgraça ou ânsia –

Com que a chama do esforço se remoça,

E outra vez conquistemos a Distância –

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

 

 

Ouça o poema musicado e interpretado por André Luiz Oliveira.

Se preferir ouvir Prece na voz de Gilberto Gil, clique no link abaixo:

http://leaoramos.blogspot.com/2007/01/fernando-pessoa-gilberto-gil-em-prece.html

O CULPADO

 

O poeta lamenta, reconhece a falha e pede desculpas por não ter aprendido a trabalhar com as mãos. Evidencia então o valor e a dignidade de um tipo de trabalho do qual se distanciou e nunca aprendeu a fazer, sentindo-se por isso incompleto como ser humano.

Assim, o poema de Neruda, O Culpado, pode introduzir o debate sobre a divisão técnica e social do trabalho e a inevitável limitação pessoal resultante das especializações, sejam manuais, intelectuais, gerenciais ou administrativas.  Pode também ser usada como parte de uma crítica da divisão taylorista do trabalho, especialmente da divisão entre os que pensam o trabalho e os que o executam.

Dessa forma, a Germinal Consultoria tem inserido O Culpado em  alguns de seus programas. O fato do poeta constatar a limitação justamente no artista e intelectual tem especial interesse, assim como a descrição que o poema faz do processo artesanal de trabalho (criativo e com domínio de todas as etapas) na confecção de uma vassoura.

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O Culpado  

Eu me declaro culpado de não ter
feito, com estas mãos que me deram,
uma vassoura.

Por que não fiz uma vassoura?

Por que me deram mãos?

Para que me serviram
se só vi o rumor do cereal,
se só tive ouvidos para o vento
e não recolhi o fio
da vassoura,
verde ainda na terra
e não pus para secar os talos ternos
e não os pude unir
num feixe áureo
e não juntei um caniço de madeira
à saia amarela
até dar uma vassoura aos caminhos?

Assim foi!
Não sei como
me passou a vida
sem aprender, sem ver,
sem recolher e unir
os elementos.

Nesta hora não nego
que tive tempo,
tempo,
mas não tive mãos,
e assim, como podia
aspirar com razão à grandeza
se nunca fui capaz
de fazer
uma vassoura
uma só,
uma?

 

Pablo Neruda, “O Culpado”, in: KÜLLER, J. A., Ritos de Passagem, São Paulo, Senac, 1996. p. 27.