4 músicas sobre sonho, vida e beleza

 

 

Esta postagem é diferente das anteriores. Ela apresenta quatro músicas ao mesmo tempo. A referência para a postagem de poesias e músicas neste blog tem sido sempre uma situação de aprendizagem. E essas quatro músicas fazem parte de uma mesma dinâmica  de aprendizagem. Embora totalmente diferentes entre si, as quatro canções falam de beleza, de valores pessoais, de trabalho, de sonhos e ideais, da vida. A situação de aprendizagem que deu origem a este post faz parte de um  programa de aprendizagem: o “Jovem Aprendiz Rural”, do SENAR/SP e refere-se ao componente curricular:  Projeto de Vida.

 

1.  Beleza Pura (Caetano Veloso)

Não me amarra dinheiro não
mas formosura
Dinheiro não
a pele escura
Dinheiro não
a carne dura
Dinheiro não
Moça preta do Curuzu
Beleza pura
Federação
Beleza pura
Boca do Rio
Beleza pura
Dinheiro não
Quando essa preta começa a tratar do cabelo
É de se olhar
Toda a trama da trança a transa do cabelo
Conchas do mar
Ela manda buscar pra botar no cabelo
Toda minúcia
Toda delícia
Não me amarra dinheiro não
mas elegância
Não me amarra dinheiro não
mas a cultura
Dinheiro não
a pele escura
Dinheiro não
a carne dura
Dinheiro não
Moço lindo do badauê
Beleza Pura
Do Ilê aiyê
Beleza Pura
dinheiro Hié
Beleza Pura
Dinheiro não
Dentro daquele turbante dos filhos de Gandhi
É o que há
Tudo é chique demais, tudo é muito elegante
Manda botar
Fina palha da corte e que tudo se trance
todos os búzios
todos os ócios
Não me amarra dinheiro não
Mas os mistérios

 

2. Sonho Impossível (J. Darion – M. Leigh, versão de Chico Buarque e Ruy Guerra)

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

 

3.  Tocando em frente  (De Almir Sater e Renato Teixeira)

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco eu sei
Eu nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada
Eu vou
Estrada eu sou
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora um dia
A gente chega
E o outro vai embora
Cada um de nós
Compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz.

 

4. Redescobrir ( Luiz Gonzaga Júnior)

Como se fora brincadeira de roda
Memória
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias
O suor dos corpos na canção da vida
História
O suor da vida no calor de irmãos
Magia
Como um animal que sabe da floresta
Memória
Redescobrir o sal que está na própria pele
Macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa
Magia
Vai o bicho homem fruto da semente
Memória
Renascer da própria força a própria luz e fé
Memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós
História
Somos a semente, ato, mente e voz
Magia
Não tenha medo meu menino povo
Memória
Tudo principia na própria pessoa
Beleza
Vai como a criança que não teme o tempo
Mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor
Magia

 

Se quiser conhecer a situação de aprendizagem em que as  quatro músicas acima são usadas, clique aqui. Ela  faz parte do Projeto de Vida do Programa “Jovem Aprendiz Rural” e foi retirada do manual do instrutor, elaborado pela  Germinal Consultoria.

PARA “A SEBASTIANA “

 

 

La Sebastiana - casa de Neruda

 O poema Para “La Sebastiana” entrou pela primeira vez como recurso instrucional numa situação de aprendizagem da Oficina de Artes Mecânicas de um Curso para Caseiros, desenvolvido pela  Germinal Consultoria . Neste caso, havia uma correspondência direta com os temas em estudo. Depois o poema foi inserido em outras situações de aprendizagem de diferentes áreas. Para “La Sebastiana” descreve com poesia a emoção da construção e da concretização do projeto.

Neruda escreveu o poema enquanto construia sua própria casa. Mas ele pode ser referido a qualquer outro projeto ou construção humana.  De preferência deve ser usado em projetos que tenham a possibilidade de  mobilizar intensamente as emoções de seus protagonistas.

 

Para “A Sebastiana”                                                                            

Eu construi a casa.

Primeiramente fi-la  de ar.
Depois hasteei a bandeira 
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.

Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um camião chegou:
desceram sacos  e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura – mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas – 
e nessa noite não dormi. 

Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,     
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram                                                                     
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave,  e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta: faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.

Neruda, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73.

Se quiser visualizar a sessão de aprendizagem da oficina Artes Mecânicas para caseiros, criada e desenvolvida pela Germinal Consultoria para o Senac/SP, clique aqui.