O NÚMERO QUATRO

 

QUATRO - pedra da Gávea

Pedra da Gávea

 Existem coisas que aparentemente não mudam. Determinadas estruturas sociais, velhos hábitos, determinados modos de pensar…

No entanto, as mudanças ao longo do tempo e em todos os âmbitos da vida constituem um fato irrefutável. Ainda que não se dê conta de quando ou quanto, ainda que não se acredite nelas ou não se lhes dê importância,  mesmo quando imperceptíveis no dia a dia, as mudanças acontecem.

Esse contraponto entre a aparente imobilidade e a mudança inevitável precisa vir  à baila sempre que se discute, na empresa ou na escola, paradigmas, estruturas ou formas de ser muito sólidas e estabelecidas.

O poema O Número Quatro, de João Cabral de Melo Neto, certamente é um bom ponto de partida para debates desse tipo. Também pode ser incluído em dinâmicas que tem a mudança como tema. Assim tem sido inserido em muitas situações de aprendizagem previstas e mediadas pela Germinal Consultoria.

     O NÚMERO QUATRO 

 

O número quatro feito coisa

ou a coisa pelo quatro quadrada,

seja espaço, quadrúpede, mesa,

está racional em suas patas;

está plantada, à margem e acima

de tudo o que tentar abalá-la,

imóvel ao vento, terremotos,

no mar maré ou no mar ressaca.

Só o tempo que ama o ímpar instável

pode contra essa coisa ao passá-la:

mas a roda, criatura do tempo,

é uma coisa em quatro, desgastada

 

                              João Cabral de Melo Neto

Anúncios

CATAR FEIJÃO

 

 

 Sintético, seco e preciso. É assim que o poeta João Cabral faz a comparação do gesto de escolher feijão com o de escrever. O poema Catar Feijão é como uma aula de mestre sobre o cuidado na escolha das palavras para fazer a  lapidação de um texto.

Seguindo as instruções do mestre, uma situação de aprendizagem na oficina Comunicação Oral e Escrita, do programa de Aprendizagem Rural, foi construída a partir do poema Catar Feijão.

Catar feijão    

     1.
      Catar feijão se limita com escrever:
      joga-se os grãos na água do alguidar
      e as palavras na da folha de papel;
      e depois, joga-se fora o que boiar.
      Certo, toda palavra boiará no papel,
      água congelada, por chumbo seu verbo:
      pois para catar feijão, soprar nele,
      e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
      2.
      Ora, nesse catar feijão, entra um risco:
      o de entre os grãos pesados entre
      um grão qualquer, pedra ou indigesto,
      um grão imastigável, de quebrar dente.
      Certo não, quanto ao catar palavras:
      a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
      obstrui a leitura fluviante, flutual,
      açula a atenção, isca-a com o risco.


   Melo Neto, João Cabral. Obra Completa, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1999.
  

Clique aqui para abrir a página CATAR FEIJÃO para redigir uma biografia, referente a uma sessão de aprendizagem da Oficina de Comunicação Oral e Escrita, Eixo I – Competências Básicas para o Trabalho,  dimensão Ser Pessoa,  do  Programa Jovem Aprendiz Rural.  O Programa foi totalmente desenvolvido pela Germinal Consultoria para o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) – Administração Regional do Estado de São Paulo, entre 2004 e 2006.

O RELÓGIO

 

Representação do Relógio do Paço (Museu do Azulejo), Lisboa

Representação do Relógio do Paço da Ribeira (Museu do Azulejo), Lisboa

 Conhecemos poucas formas de utilização de O Relógio, de João Cabral de Melo Neto em situações de aprendizagem. Em uma delas, o poema é utilizado para discutir a dinâmica e a divisão do trabalho na Organização Clássica do Trabalho. A poesia é uma alternativa sensível, artística e criativa para tratar um tema sempre abordado  de forma muito  técnica. Através de O Relógio, é possível proporcionar um conhecimento e uma vivência da organização do trabalho de forma sensível e muito envolvente.

 

O RELÓGIO

                      

1. Ao redor da vida do homem

     há certas caixas de vidro,

    dentro das quais, como em jaula,

    se ouve palpitar um bicho.

 

 

    Se são jaulas não é certo;

    mais perto estão das gaiolas

    ao menos, pelo tamanho

    e quebradiço da forma.

 

    Umas vezes, tais gaiolas

    vão penduradas nos muros;

    outras vezes, mais privadas,

    vão num bolso, num dos pulsos.

 

    Mas onde esteja: a gaiola

    será de pássaro ou pássara:

    é alada a palpitação,

    a saltação que ela guarda;

 

    e de pássaro cantor,

    não pássaro de plumagem:

    pois delas se emite um canto

    de uma tal continuidade

 

    que continua cantando

    se deixa de ouvi-lo a gente:

    como a gente às vezes canta

    para sentir-se existente.

 

2.  O que eles cantam, se pássaros,

     é diferente de todos:

     cantam numa linha baixa,

     com voz de pássaro rouco;

 

     desconhecem as variantes

     e o estilo numeroso

     dos pássaros que sabemos,

     estejam presos ou soltos;

 

     têm sempre o mesmo compasso

     horizontal e monótono,

     e nunca, em nenhum momento,

     variam de repertório:

 

     dir-se-ia que não importa

     a nenhum ser escutado.

     Assim, que não são artistas

     nem artesãos, mas operários

 

     para quem tudo o que cantam

     é simplesmente trabalho,

     trabalho rotina, em série,

     impessoal, não assinado,

 

     de operário que executa

     seu martelo regular

     proibido (ou sem querer)

     do mínimo variar.

 

3.  A mão daquele martelo

     nunca muda de compasso.

     Mas tão igual sem fadiga,

     mal deve ser de operário;

 

     ela é por demais precisa

     para não ser mão de máquina,

     e máquina independente

     de operação operária.

 

     De máquina, mas movida

     por uma força qualquer

     que a move passando nela,

     regular, sem decrescer:

 

     quem sabe se algum monjolo

     ou antiga roda de água

     que vai rodando, passiva,

     graças a um fluído que a passa;

 

     que fluído é ninguém vê:

     da água não mostra os senões:

     além de igual, é contínuo,

     sem marés, sem estações.

 

     E porque tampouco cabe,

     por isso, pensar que é o vento,

     há de ser um outro fluído

     que a move: quem sabe, o tempo.

 

4.  Quando por algum motivo

     a roda de água se rompe,

     outra máquina se escuta:

     agora, de dentro do homem;

 

     outra máquina de dentro,

     imediata, a reveza,

     soando nas veias, no fundo

     de poça no corpo, imersa.

 

     Então se sente que o som

     da máquina, ora interior,

     nada possui de passivo,

     de roda de água: é motor;

 

     se descobre nele o afogo

     de quem, ao fazer, se esforça,

     e que ele, dentro, afinal,

     revela vontade própria,

 

     incapaz, agora, dentro,

     de ainda disfarçar que nasce

     daquela bomba motor

     (coração, noutra linguagem)

 

     que, sem nenhum coração,

     vive a esgotar, gota a gota,

     o que o homem, de reserva,

     possa ter na íntima poça.                                

                                                      João Cabral de Melo Neto, Antologia Poética, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1979, p.68                          

 

 Clique aqui para abrir a página Dinâmica com O Relógio. Ela faz parte da primeira sessão de aprendizagem da Estação de Trabalho de Administração e Organização, de uma versão alternativa do Programa de Educação para o Trabalho, desenvolvida pela Germinal Consultoria. A estação de trabalho utiliza o teatro como referência metodológica. O excerto, Cena VII, do Ato I, foi retirado do Manual do Instrutor. Lá, o poema é usado como roteiro para uma ação dramática. Esse uso da poesia é exemplar. Dramatizar um poema é uma forma de interpretá-lo e de perceber que, como texto simbólico que é, pode ser objeto de múltiplas interpretações.

TECENDO A MANHÃ

Amanhecer - Galeria Brasiliana

Amanhecer - Galeria Brasiliana

 

Este poema de João Cabral de Melo Neto traz em si inúmeras possibilidades de utilização em situações de aprendizagem, seja na escola ou empresa. Para enumerar apenas algumas: a sensibilização para o tema da união; a abordagem do requisito fundamental da integração de todas as pessoas no trabalho coletivo; a exploração dos papéis individuais num processo de trabalho integrado e muitas outras. 

 

 

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã.
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

 

Clique aqui para abrir a página Dinâmica de Encerramento com Tecendo a Manhã. A página foi retirada das Referências para a Ação Docente, da Oficina de Expressão em Diferentes Linguagens do Eixo I – Promover o Desenvolvimento Sustentável do Turismo, do Projeto Trilha Jovem. O Projeto foi desenvolvido pela Germinal Consultoria para o Instituto de Hospitalidade. A página apresenta um exemplo de utilização deste poema, diferente de todas as possibilidades anteriormente citadas.

 

 

Published in: on fevereiro 2, 2009 at 8:22 pm  Comments (8)  
Tags: , , , , , , , ,